Avançar para o conteúdo principal

As Minhas Memórias - 4ªparte - Arquitectura ou Dança?

Escolher entre a profissão académica e a profissão do coração, foi uma das decisões mais difíceis, se não, a mais difícil que tive de tomar até hoje.
A escolha que acabei por seguir, não a decidi de um dia para o outro, demorei anos a perceber que um caminho, embora bem visto pela sociedade, me levaria á frustração e o outro, completamente mal interpretado, me desafiaria ao longo da minha Vida.
Como todos sabem, segui o que o coração me gritava: Dançar.
Como todos os adolescentes, tive imensas dúvidas, principalmente a partir do 9ºano, do que queria fazer quando fosse adulta. Embora soubesse que a minha paixão fosse a dança, cresci a ouvir dizer que isso não era profissão, que a Arte em geral não enchia barrigas, não pagava contas e o pior: era mal visto. Desde a pintura, á escultura, ás artes gráficas, ao teatro, etc... não era um trabalho, era qualquer coisa... menos uma profissão digna. Todas menos Arquitectura.
Como sempre percebi que não poderia seguir dança ( a clássica) pensei sempre em seguir alguma coisa relacionada com Artes e claro só tinha uma hipótese digna de satisfazer a sociedade, ou melhor, os meus pais, se é Artes, só pode ser Arquitectura. E lá fui eu! Todos (pais) super orgulhosos e eu completamente iludida a entrar na faculdade...
Muitos perguntam-me ou ficam admirados por:
1º ter um curso superior - uma bailarina de dança oriental formada?!!!
2º Arquitectura - não é um curso qualquer, dizem muitos, é uma formação respeitável!
3º e agora danças... Dança Oriental?!!! - o que se passou pela minha cabeça, ter uma licenciatura e trocar isso por dança?!!
Pois posso dizer toda orgulhosa que sou licenciada em Arquietctura pela faculdade Lusíada, e não me arrependo nada de ter estudado e ter ido para a faculdade. Mas não amava Arquitectura, não sonhava em ser arquitecta, eu nem sequer sabia bem o que isso era... fui porque tinha de ir, não queria desiludir os meus pais, e pensava, vou aprender e vou acabar por gostar e seguir uma grande profissão!
Durante os seis anos (chumbei logo no primeiro ano, para verem a ilusão que estava metida) de faculdade "sofri" uma das maiores transformações: passei de criança a adulta e foi lá que, através da própria formação, colegas, e extraordinários professores que tive o privilégio de ter aulas, percebi que não adianta lutar contra a nossa natureza e o mais importante é seguir o que nos vai na alma, nem que para isso choque tudo e todos á nossa volta.
Foi isto que aprendi na faculdade: armas para lutar pelos meus sonhos.
No início do curso percebi logo que não achava muita piada aquilo, fazia por pura obrigação, já que lá estava tinha de continuar... a meio do curso já um pouco desesperada por nunca mais terminar, conheci o meu marido (a faculdade também serviu para isso, além de me encontrar a mim própria, encontrei o Amor da minha Vida) e foi ele que me ajudou a continuar. Nos últimos dois anos, só pensava em desistir, tinha começado a ter as aulas de Dança Oriental, que me fez repensar naquilo que realmente queria para a minha vida, já não aguentava mais aquele curso e aquela faculdade.
No último ano pensei mesmo em sair, mas como estava a terminar, decidi (e ainda bem que o fiz) terminar, embora, no meu intimo já tivesse decidido que acabava o curso mas nunca mais pegaria num projecto. E foi isso que aconteceu! Acabei a faculdade á seis anos e o meu último projecto foi o meu trabalho final de curso... e digo-vos que não tenho saudades nenhumas!
Queria ser bailarina, o meu sonho de criança... e imaginem quando disse isto aos meus pais... não, não imaginam!
Gostaria muito de vos dizer que os meus pais aceitaram lindamente, aplaudiram de pé e me disseram: força filha!!! Claro que isso não aconteceu, muito pelo contrário...
A desilusão de eu não seguir uma profissão "digna" e que tanto projectaram para mim foi grande, e ainda hoje, embora a uma outra escala, acham que não trabalho, faço algumas coisas... mas não é trabalho com futuro.
Se é ou não, não sei, mas pelo menos tive a coragem de seguir aquilo que realmente queria e ninguém me pode dizer que fui "obrigada" a dançar. Segui o meu coração, mas foi muito difícil enfrentar o estigma da sociedade, pais e até os meus próprios preconceitos e tabus.
Só depois de ter começado a dar aulas e a apresentar-me em público é que comecei a entender o difícil caminho que tinha escolhido, pois de de inicio pensei que tudo iria ser mar e rosas. Mais uma vez iludida!!! Tive e tenho de trabalhar muito e provar muito a muita gente que não era uma decisão por puro capricho de menina mimada.
E provei!!! Embora os meus pais continuem a achar que não é profissão e que não trabalho, aparentemente, respeitam a minha decisão, mas não aprovam... e ainda hoje sinto uma mágoa por isso... queria muito que entendessem...
Incrível, mas a única pessoa que me entendeu e apoiou, foi o meu marido. Embora quando abordei o assunto de que "se calhar não é arquitectura que quero fazer" ele tenha reagido mal e não tenha percebido na altura, eu querer "jogar fora" anos de estudo.
Namorávamos na época, e ajudou-me em todo o processo inicial, principalmente quando tinha grandes discussões com os meus pais. Apoiava-me indo aos locais onde ia dançar e chegou mesmo a aprender um pouco de percussão para me acompanhar em exibições!!!
Muito me disseram que me ia arrepender, e não desminto que já houve momentos que pensei: " o que fiz da minha vida, devia ter feito o estágio e estar num atelier", mas são só momentos. Adoro a minha Vida e adoro o que faço, sinto-me orgulhosa de ter sido eu, na altura certa, ter pegado nas rédeas do meu futuro, e ter ouvido o meu coração, não me deixando influenciar por preconceitos, opiniões, experiências de vidas, o que dá dinheiro, estabilidade, etc... Escolhi dançar, escolhi sentir-me bem naquilo que faço, embora seja difícil o caminho, mas pelo menos é o Meu caminho.

Comentários

  1. Concordo ctg Sara. Sou mais uma a pensar da mma forma. Tomar as rédeas e seguir em frente, seguir o próprio caminho... pois este só pode ser traçado e vivido por nós mmas.
    Pode ter sido a decisão mais dificil, mas com certeza a que te faz mais feliz :)

    ResponderEliminar
  2. Foi graças à tua "preciosa escolha" que tenho o prazer de ter uma excelente professora e profissional!


    Beijinhos,
    Cláudia M.

    ResponderEliminar
  3. Sara de Oliveira (facebook.com/sara de oliveira)10 de novembro de 2009 às 15:34

    Olá Sara! Fiquei surpreendida por ler a tua história! És uma mulher forte, com "fibra"! Já admirava o teu trabalho como bailarina e passo a admirar-te como pessoa. Sempre que assisto a dança oriental, não consigo deixar de comparar com a forma graciosa como danças...é inevitável! E concluo sempre: "não conheci alguém que dance como a professora Sara"...danças com alma e coração, sentes a música e consegues transmitir-nos isso claramente, pelos movimentos e pela expressão facial. Ainda bem que seguiste o caminho que realmente te preenche, apesar de todos os obstáculos. Parabéns por seres a bailarina que és hoje. Beijinho.

    ResponderEliminar
  4. fantástica história, pessoas como tu sara já são raras...admiro te muito pela coragem de seguir o teu sonho a tua paixão... bjinhos

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Diário de Uma Professora de Dança Oriental - #aula36

 Querido Diário, E “just like that” entrei em contagem decrescente para o final desta época lectiva. Aconteceu a antepenúltima aula e senti nela um acumular de todos estes meses. Acusei já algum cansaço e nas alunas também. Completamente normal para esta altura do ano. Confesso que, mais do que descansar, preciso de sair da minha rotina. Não ter horários nem compromissos. Preciso de me afastar. De acalmar. Acho que a sensação é geral. Já temos os meses de Verão programados e só já pensamos em praia, mar e boa comida. Pelo menos, é o que eu penso. Mas, há que finalizar. Há que terminar com o mesmo cuidado com que se começou e assim, estas últimas aulas são descontraídas, mas autenticas. Leves, mas com rigor. Vai-se com preguiça, mas sai-se com o sentido de “dever cumprido”. Porque, acredito no que sempre ouvi: o mais importante não é como se começa, mas  como acaba. No Palco e na Vida.

Diário de Uma Professora de Dança Oriental - #aula37

 Querido Diário, Penúltima aula. Com muito, muito, muito calor. Confesso que gosto de calor mas, não este calor que se fez sentir. Dançar nestas temperaturas é, para mim... doloroso. Mas, não é a primeira vez e, não será a última. Já passei por ensaios e espectáculos em condições de temperatura semelhantes e, aqui estou. Porque na verdade, nunca temos as condições ideais. Há sempre algo que nos faz apetecer recuar ou ter a desculpa perfeita para desistir. Como sempre digo, há que contrariar e, pela minha experiência, criar - grande parte das vezes - as condições. E assim, a #aula37 acontece. E, como todas as outras desta época lectiva, foram criadas as condições.   Não as ideais, mas as possíveis para que a minha visão e método de Dança Oriental fosse continuado.   E continuou. Que se refletiu nesta aula. E, mais do que tudo, refletiu-se vontade e dedicação. Também, grande parte das vezes, são só estas as condições que bastam.

Diário de Uma Professora de Dança Oriental - #aula38

 Querido Diário, #aula38. Última desta época 24/25. Às minhas lindas alunas devo o sucesso deste ano. A elas eu agradeço profundamente a confiança, compromisso e a dedicação que demostraram ao longo dos meses. O companheirismo que se gerou e a companhia que me fizeram. Aprendo mais que ensino... sempre foi assim. São as alunas que constroem as aulas e as impulsionam. São elas que dão continuidade e as divulgam com orgulho. São o testemunho real da Dança Oriental. Para mim, foi um privilégio . Como sempre é. Esta última aula foi de partilha, riso, descompressão, brincadeira e, despedida. Saber parar é um dos movimentos mais difíceis de executar. Talvez o mais desafiante. Não dá para coreografar. Só sentir. Reagir e deixar impactar.   É tempo de pausar. Descansar. Reflectir. Sem promessas. Finalizar este ciclo. Até Já!