terça-feira, 8 de abril de 2014

Lições de Vida e de Dança VIII - A Mulher Portuguesa

A Mulher Portuguesa Tem um Bocado de Pena dos Homens

A mulher portuguesa não é só Fada do Lar, como Bruxa do Ar, Senhora do Mar e Menina Absolutamente Impossível de Domar. É melhor que o Homem Português, não por ser mulher, mas por ser mais portuguesa. Trabalha mais, sabe mais, quer mais e pode mais. Faz tudo mais à excepção de poucas actividades de discutível contribuição nacional (beber e comer de mais, ir ao futebol, etc). Portugal (i.e., os homens portugueses) pagam-lhe este serviço, pagando-lhes menos, ou até nada. 


O pior defeito do Homem português é achar-se melhor e mais capaz que a Mulher. A maior qualidade da Mulher Portuguesa é não ligar nada a essas crassas generalizações, sabendo perfeitamente que não é verdade. Eis a primeira grande diferença: o Português liga muito à dicotomia Homem/Mulher; a Portuguesa não. O Português diz «O Homem isto, enquanto a Mulher aquilo». A Portuguesa diz «Depende». A única distinção que faz a Mulher Portuguesa é dizer, regra geral, que gosta mais dos homens do que das mulheres. E, como gostos não se discutem, é essa a única generalização indiscutível. 

A Mulher Portuguesa é o oposto do que o Homem Português pensa. Também nesta frase se confirma a ideia de que o Homem pensa e a Mulher é, o Homem acha e a Mulher julga, o Homem racionaliza e a Mulher raciocina. E mais: mesmo esta distinção básica é feita porque este artigo não foi escrito por uma Mulher. 

Porque é que aquilo que o Homem pensa que a Mulher é, é o oposto daquilo que a Mulher é, se cada Homem conhece de perto pelo menos uma Mulher? Porque o Português, para mal dele, julga sempre que a Mulher «dele» é diferente de todas as outras mulheres (um pouco como também acha, e faz gala disso, que ele é igual a todos os homens). A Mulher dele é selvagem mas as outras são mansas. A Mulher dele é fogo, ciúme, argúcia, domínio, cuidado. As outras são todas mais tépidas, parvas, galinhas, boazinhas, compreensíveis. 

Ora a Mulher Portuguesa é tudo menos «compreensiva». Ou por outra: compreende, compreende perfeitamente, mas não aceita. Se perdoa é porque começa a menosprezar, a perder as ilusões, e a paciência. Para ela, a reacção mais violenta não é a raiva nem o ódio – é a indiferença. Se não se vinga não é por ser «boazinha» – é porque acha que não vale a pena. 

A Mulher Portuguesa, sobretudo, atura o Homem. E o Homem, casca grossa, não compreende o vexame enorme que é ser aturado, juntamente com as crianças, o clima e os animais domésticos. Aturar alguém é o mesmo que dizer «coitadinho, ele não passa disto…» No fundo não é mais do que um acto de compaixão. A Mulher Portuguesa tem um bocado de pena dos Homens. E nisto, convenhamos, tem um bocado de razão. 

O que safa o Homem, para além da pena, é a Mulher achar-lhe uma certa graça. A Mulher não pensa que este achar-graça é uma expressão superior da sua sensibilidade – pelo contrário, diverte-se com a ideia de ser oriundo de uma baixeza instintiva e pré-civilizacional, mas engraçada. Considera que aquilo que a leva a gostar de um Homem é uma fraqueza, um fenómeno puramente neuro-vegetativo ou para-simpático – enfim, pulsões alegres ou tristemente irresistíveis, sem qualquer valor.

E chegamos a outra característica importante. É que a Mulher Portuguesa, se pudesse cingir-se ao domínio da sua inteligência e mais pura vontade, nunca se meteria com Homem nenhum. Para quê? Se já sabe o que o Homem é? Aliás, não fossem certas questões desprezíveis da Natureza, passa muito bem sem os homens. No fundo encara-os como um fumador inveterado encara os cigarros: «Eu não devia, mas.. » E, como assim é, e não há nada a fazer, fuma-os alegremente com a atitude sã e filosófica do «Que se lixe». 
Homens, em contrapartida, não podiam ser mais dependentes. Esta dependência, este ar desastrado e carente que nos está na cara, também vai fomentando alguma compaixão da parte das mulheres. A Mulher Portuguesa também atura o Homem porque acha que «ele sozinho, coitado; não se governava». O ditado «Quem manda na casa é ela, quem manda nela sou eu» é uma expressão da vacuidade do machismo português. A Mulher governa realmente o que é preciso governar, enquanto o homem, por abstracção ou inutilidade, se contenta com a aparência idiota de «mandar» nela. Mas ninguém manda nela. Quando muito, ela deixa que ele retenha a impressão de mandar. Porque ele, coitado, liga muito a essas coisas. Porque ele vive atormentado pelo terror que seria os amigos verificarem que ele, na realidade, não só na rua como em casa não «manda» absolutamente nada. «Mandar» é como «enviar» – é preciso ter algo para mandar e algo ao qual mandar. Esses algos são as mulheres que fazem. 

O Homem é apenas alguém armado em carteiro. É o carteiro que está convencido que escreveu as cartas todas que diariamente entrega. A Mulher é a remetente e a destinatária que lhe alimenta essa ilusão, porque também não lhe faz diferença absolutamente nenhuma. Abre a porta de casa e diz «Muito obrigada». É quase uma questão de educação. 

A imagem da «Mulher Portuguesa» que os homens portugueses fabricaram é apenas uma imagem da mulher com a qual eles realmente seriam capazes de se sentirem superiores. Uma galinha. Que dizer de um homem que é domador de galinhas, porque os outros animais lhe metem medo? 
Na realidade, A Mulher Portuguesa é uma leoa que, por força das circunstâncias, sabe imitar a voz das galinhas, porque o rugir dela mete medo ao parceiro. Quando perdem a paciência, ou se cansam, cuidado. A Mulher portuguesa zangada não é o «Agarrem-me senão eu mato-o» dos homens: agarra mesmo, e mata mesmo. Se a Padeira de Aljubarrota fosse padeiro, é provável que se pusesse antes a envenenar os pães e ir servi-los aos castelhanos, em vez de sair porta fora com a pá na mão. 

Miguel Esteves Cardoso, in ' A Causa das Coisas '

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Lições de Vida e de Dança VII - O Poder da Escolha

Não. Não sou nenhuma iluminada. 
Não. Não sou melhor que qualquer outra pessoa.
Não. Não sou nenhuma santa.
Não. Não sou diferente dos demais.
Sim. Escolho sim, seguir o meu instinto quando me diz ir para esquerda quando todos me dizem para ir para a direita.
Sim. Opto por marcar a diferença quando tenho a coragem (há quem confunda com ousadia) de fazer aquilo que digo, sinto, penso mesmo que não seja compreendido ou passe por maluca.
Sim. Danço aquilo que sinto, quando e aquilo que me apetece. Não me faria sentido ser de outra maneira, porque a Dança é a linguagem sagrada de Deus que, quando sintonizada, torna-se ARTE.
Sim. Escolho dar um carinho e atenção a um animal quando o podia ignorar.
Sim. Escolho tentar compreender os outros. Sim. Escolho perdoar, aceitar as minhas imperfeições e os meus limites. Sim. Escolho, mesmo sendo a única a fazê-lo, decidir pelos meus valores.
Tudo é uma escolha... e a escolha do correcto, da luz, do amor, do perdão, da sabedoria, da humildade... é sem duvida a mais difícil, a mais desafiante mas a mais recompensadora.
Não acredito do olho por olho, dente por dente. Não acredito na vingança. Não acredito no egoísmo, no ego, na magoa, no chico-espertismo.
Acredito na minha individualidade, na minha originalidade, no meu eu.
Acredito que quando descobrimos o nosso potencial, liberta-mo-nos da insegurança e da busca incessante/frustrante da aceitação dos outros. 
Acredito que os nossos actos (mais do que palavras e pensamentos), por mais doidos que pareçam, podem e fazem a diferença na vida de alguém, ou de algum ser. Há quem diga que é maluquice, eu digo que é determinação.
Acredito no profissionalismo e respeito pela dança, pela vida e pelo outros. Doa a quem doer, compreendem ou não. Confio nas minhas decisões, e na minha intuição mais do que a razão.
Há doze anos atrás, ESCOLHI, espreitar uma aula de dança onde a musica me encantava. Senti um chamamento estranho. ESCOLHI ouvir esse chamamento experimentando-a e COMPROMETI-ME em saber mais sobre ela. 
Essa escolha, ressuscitou-me, mostrou-me um caminho de auto-descoberta que ansiava encontrar e aqui estou hoje. 
Ter decidido pelo caminho da dança deu-me um sentido de vida que nem sequer sabia que existia. Fez-me agarrar o destino. Deu-me as ferramentas para poder saber quem é e ser a Sara, indomada e livre.
Acredito nas MINHAS ESCOLHAS.
Do you?!