sexta-feira, 6 de maio de 2011

Frustrante é:


Ir para palco (seja ele qual for, e acreditem já me apareceu todos os tipos de "palcos") e não ter condições para poder mostrar convenientemente toda a minha arte.

Durante estes últimos oito anos, já dancei nos mais variadíssimos espaços e se, nos primeiros tempos, até achava piada ao ridículo de espaços que me apareciam, agora não acho gracinha nenhuma. Aliás, cada vez estou mais cansada da falta de condições (até mesmo mínimas) para poder fazer o meu trabalho como ele merece ser mostrado. 
Estou mesmo farta de fazer "omeletes sem ovos"! Mais do que farta, é frustrante...

Farto-me de rir quando ouço miúdas (e não só), a dizer que querem e conseguem dançar onde  for, que se sentem preparadas e com coragem de enfrentar qualquer publico e, dançar maravilhosamente bem qualquer musica árabe. 
Pois sim... estão preparadas, pois estão confortavelmente instaladas num palco (normalmente de auditório), com todo o trabalhinho feito pela professora/bailarina responsável pelo espectáculo. Só têm de se embelezar e tentarem fazer o melhor. 
Assim sim... o glamour inerente é viciante e têm a necessidade de dançar senão explodem de repressão!!!! 
Pois é... agora imaginem (e tenho a certeza que algumas colegas minhas se revêem e percebem exactamente o que quero dizer), chegam ao tal palco prontas para conquistar o mundo e:
. o chão está escorregadio;
. é inclinado;
. tem vidros no chão;
. está molhado;
. tem buracos;
. não tem espaço;
. o som é péssimo (baixo demais, alto demais,...);
. o cd "salta" a cada movimento;
. a musica pára;
. cortam-nos a musica porque pensam que já terminou;
. com luz a mais;
. com luz a menos;
. etc... etc...
e têm de continuar a dançar e a encantar, pois quem está a ver e/ou quem preparou o "ambiente" está-se nas tintas para a falta de condições de quem está a dançar.

Pois eu digo-vos que no final é esgotante, e só dá vontade de gritar! 
Aquilo que referi é só um terço (ou um quarto) de tudo que já tive de passar para poder fazer os meus solos e, já para não falar da qualidade de publico e quando os trajes/adereços resolvem pregar-nos uma partida. 
Esta é a a minha realidade como bailarina, não são Tivolis, CCBs, Auditórios XPTOs... esses são muito de vez em quando.
Não é para todos, é só para quem tem mesmo MESMO vocação.
Aconselho a todas aquelas que querem fazer disto vida ou aquelas que têm de dançar publicamente senão morrem que, experimentem um pouquinho da vida real de uma bailarina e depois pensem duas vezes quando dizem que estão prontas. 

Nunca estamos prontas, pois nunca sabemos o próximo cromo que nos sai da carteirinha!

7 comentários:

  1. E tirando todas essas partes más, o apresentares-te em público não te dá uma sensação enorme de felicidade?

    Gosto de pensar sempre que o copo está meio cheio. Há as partes más, mas as partes boas conseguem sempre fazer valer tudo a pena.

    Não penso ser bailarina. Nunca o quis e não é o quero fazer da minha vida. Não fui talhada para tal. Mas sabe-me bem poder mostrar que faço uma coisa de que gosto e que me é muito especial, nem que seja numa festa para amigos.

    (espero que não tenhas interpretado mal o meu post)

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  2. Claro que é uma enorme felicidade poder mostrar o meu trabalho mas sabes, eu danço primeiro para mim e não para um publico. Ele (publico)é que tem a sorte de poder ver a minha Arte, e se, eu não tiver condições, esse mesmo publico não vai ver o melhor de mim mas uma coisa "em cima do joelho".
    Parece prepotência da minha parte, mas na verdade é isso que acontece.
    Chega a um ponto que as partes boas não superam as más! E eu quando danço tenho de ter apoio técnico senão a minha felicidade e gozo em dançar cai por terra e isso é o que mais me chateia, não me divertir enquanto danço.
    Como não faço isto à dois dias... daí o cansaço. Preciso de mais para poder também dar mais. Imagina fazeres o que estás a fazer no teu trabalho com um computador de há dez anos atrás?!! Percebes? o trabalho faz-se mas, começa a não tem tanto gozo.
    claro que não interpretei mal o post... já te conheço o suficiente. ;))

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  3. A vida não é fácil... é preciso é força de vontade para fazermos o que gostamos! E não desistir... nunca desistir.

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  4. Fazer vida artística em Portugal é de loucos. Zaahirah, dançar é muito bonito, mas quem o faz de forma profissional e constantemente lida com obstáculos como os que a Sara menciona, acaba por desanimar. Pobre de quem depende de factores externos para mostrar o que sabe fazer.

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  5. É como um pintor pegar nos seus pinceis, desejoso por ter uma obra de arte em mente e depois não ter telas.. Ao inicio até pode considerar um desafio pois terá que arranjar outra base qualquer para exprimir o que lhe vai na alma naquele momento mas após várias e várias inspirações sem ter telas boas onde pintar, torna-se exaustivo e desmotivador! E onde ele vai buscar forças para não desistir é precisamente àqueles que o amamam e o motivam a olhar em frente com orgulho, aos que o admiram como pessoa lutadora que é bem como ao seu trabalho. E assim vai continuando, nunca desistindo e sempre na esperança de um dia, ter sempre telas boas onde despejar toda a arte que lhe vai na Alma!
    Obrigada Sara, pelas liçoes de vida e pela aprendizagem não só fisica, mas acima de tudo muito espiritual! Beijinhos com saudades, Cláudia Dança :)

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  6. Minerva: é mesmo isso, ser artista em Portugal é ser louco... tento não desanimar mas por vezes é difícil!

    Querida Claudia, disseste tudo... preciso de telas boas! Obrigado eu pelas tuas palavras!

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  7. Olá Sara,
    penso que a nossa querida Cláudia resumiu tudo muito bem, por isso peço ao Universo que te dê boas telas.
    Beijinhos.

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