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Os Primeiros 24 Meses do Resto da Minha Vida

Foram precisos dois anos para conseguir escrever este post. 
24 + 9 meses intensos e transformadores.
Tal como no texto anterior - Assim Nasceu uma Mãe - precisei de tempo, distancia e lucidez para que estas palavras que aqui vou escrever sirvam-me como uma catarse. Partilho-as porque sim. Porque é preciso dar voz. Porque sinto que há mulheres a precisar de lê-las, de homens a precisar de compreender e uma sociedade a precisar de ter consciência. Porque muito se fala sobre o "cor-de-rosa" da maternidade mas pouco sobre o seu "cinzento". Eu irei partilhar o meu "cinzento" com toques "cor-de-rosa" que nada mais é que somente a MINHA verdade, sem pretender ter comparações, competições ou julgamentos que resultem em criticas ou conselhos (des)construtivos.

Há pouco tempo, enquanto a minha filha brincava num parque infantil, eu, desabafava chorando para a amiga que estava comigo. Por momentos, tive a impressão que muitas das mulheres que ali estavam também tinham vontade de o fazer. A amiga simplesmente me ouvia - algo raro - e de repente oiço de alguém: "o que importa é que ela (filha) esteja bem". Sim. É verdade. Mas este comentário é dos que mais me fere.
Sou mãe a tempo inteiro há mais de 24 meses (26 neste momento). Isto significa muito. Muito mesmo...

Significa que, desde que a Raquel nasceu passei a cuidar dela 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias do ano, sem feriados e sem um único fim-de-semana há mais de dois anos. É um trabalho a tempo inteiro que exige amor, concentração, dedicação, calma, resistência física e mental em momentos (longos) de stress e de constante cansaço estremo. Não tenho folgas nem férias, tenho simplesmente alguns momentos para respirar fundo antes que ela chame por mim... pela 3098537527 vez nesse dia.

Significa que, ao contrário das minhas expectativas inspiradas nas falsas lindas vidas das mães princesas, eu nunca o fui, nem me tornei em todo este processo e, muito menos tive o príncepe encantado ao meu lado. Tenho um Homem (com H grande), que não, não é o melhor marido do mundo (oiço e leio isto vezes sem conta, quem souber o que isto quer dizer por favor diga-me!!!) é aquilo que é, o que consegue ser, que está presente e é companheiro como o deve ser, com todas as suas perfeitas imperfeições também ele no seu processo onde se tornou pai. Como casal, levamos um abanão comparável a um tornado. Nunca mais nada será como dantes e isso leva tempo a reconhecer e a processar. Adaptarmo-nos a uma nova realidade a três exige. MUITO. É um tema que descobri que é tabu. Tentei, nos vários círculos de mães que participei abordar o assunto mas muito pouco se fala. Acho que é um tópico que daria não um post mas um blog inteiro.

Significa que, coloquei-me em 4653º lugar de uma lista onde este número é precisamente o último lugar. Ao contrário do que diz o anúncio que mais odeio no momento, não consigo ser a mãe do ano (e esta é outra!! o que será isso??? se alguém souber, please, diga-me!!) e ainda ser tudo que a sociedade exige que eu seja e ter a vida que tinha antes de ficar grávida. Mesmo com wi-fi, não tenho a(s) papinha(s) toda(s) feita(s), aliás, não tenho nenhuma tarefa feita, sou eu que faço TUDO.

Significa que, sendo trabalhadora independente como bailarina e professora de dança, não tive licença de maternidade, nem nenhum tipo de subsidio embora tenha descontado como o estado me exigiu. Tive de parar de trabalhar que se traduziu em não receber nenhum tostão. Depois da minha filha nascer, rápido percebi - que no meu caso - recomeçar tornava-se mais dispendioso que ficar em casa com ela. E assim fiquei. Ainda estou.  E a depender do salário do marido (que não é acima da média, muito pelo contrário), porque esse sim, teve todas as licenças e subsídios.

Significa que, ganhei o apelido de "dondoca", que tenho vida fácil, porque é assim que a sociedade vê uma mãe a tempo inteiro. O que não vê é o imenso e interminável trabalho que tenho a criar, cuidar, alimentar e educar a minha filha - portanto, a SER mãe -  e não ser reconhecida por isso, porque trabalhar fora de casa isso sim é verdadeiramente um trabalho. Porque, ter tomado a opção de ser eu (a mãe) a tomar conta da filha parece que passou a ser mal e estranhamente visto como se estivesse a cometer o maior erro da minha e da vida dela. O que a sociedade - e também família - não vê é essa mesma dedicação ser completamente desvalorizada por comentários como "o que importa é que ela esteja bem". Sim. É o que mais ME importa, mas há um preço por ela estar bem e esse preço sou eu.

Significa que, descobri neste e tantos outros comentários "inocentes" que fiquei invisível. E isso magoa... muito. E não, não é uma questão de ego - como muito ouvi - e, muito menos quero ganhar um troféu. Quero só dizer que uma mãe, antes de o ser, é um ser humano com todas as fragilidades e carências como qualquer outro ser humano. Como muito erradamente se publicita, ter-me tornado mãe não me fez um ser acima dos outros com super poderes que consegue fazer tudo e reprimir todos os seus sentimentos. Muito pelo contrário, algures o meu EU deve estar pois olho no espelho e não me reconheço. Perdi-me. Perdi-me num labirinto de espectativas criadas e exigidas por mim. Desfoquei para focar-me nela. SER mãe desfez-me. Desconstruiu-me. Confrontou-me com os meus maiores e mais profundos receios e frustações que não tinha noção que existiam. É uma viagem dura numa montanha russa de emoções na qual não estava preparada. Anulei-me, para assim a minha filha não só nascer: desabrochar e crescer feliz.

Significa que a noção de tempo muda. O meu tempo ficou condicionado ao dela. E, por ainda estar a amamentar - ups!!! que escândalo!!! - e ter dado de mamar em exclusivo e em livre demanda durante meio ano (significa: nos primeiros seis meses a sua unica alimentação foi o leite materno, às horas que queria e com a duração que queria) fez com que logo que nasceu, coloquei-me completamente ao seu dispor. De dia e de noite. E, como só dormia no meu colo, vivi mais de um ano no cadeirão da sala. Depois da histeria das primeiras semanas, vi toda a gente a continuar com as suas vidas e eu fiquei... presa ao tal cadeirão. Deixei de ter liberdade e isso foi das coisas que mais me custou. Aquele pequeno ser dependia de mim para tudo, mesmo TUDO. Aos poucos, e há medida que ia crescendo e ganhando alguma autonomia, comecei a ter mais tempo fora do cadeirão mas, para ficar presa numa teia de tarefas intermináveis. Cedo percebi que delegar, grande parte das vezes, era-me mais desgastante. Percebi que estava não só condicionada ao tempo da minha filha mas também condicionada à disponibilidade dos outros para poder fazer fosse o que fosse e essa dependência é... horrível. Torna-se esgotante, porque poucos entendem que tu precisas de um tempo somente para ti, para não fazer absolutamente nada. Ninguém entende que precisas desesperadamente de sair da prisão que se tornou a tua própria casa. Que precisas urgentemente de estar com adultos (fora da esfera familiar) e conversar sobre assuntos que não envolvam amamentação e fraldas. Que já não aguentas ouvir teorias educacionais. Que ser mãe a tempo inteiro nos dias de hoje envolve muita solidão. Que acabas por deixar de desabafar/falar (confundido 99% por queixas) porque percebes que já ninguém te aguenta ouvir. Que acabas a chorar vezes sem conta sozinha porque essa parte da maternidade não é poética. É a realidade que ninguém quer ver e ajudar-te a superar. Acabas por te afastar de todos, não só por falta de disponibilidade mas também porque não te sentes confortável, sã e equilibrada para socializar.

Significa que, ainda não recuperei a "linha" - o tópico que mais pressiona as recém mães -  porque se durante a gravidez tive algum cuidado, depois não tive cuidado nenhum. Não consegui. Não quis. E não me orgulho disso. Automediquei-me com sal e cedo percebi que aquele bolo cheio de açúcar funcionava como um calmante. Rápido a comida se tornou uma droga que me dava conforto e prazer. O "desmame" desta medicação não é fácil, demora o seu tempo e confronto-a cada vez que tomo banho e cada vez que conhecidos olham para mim. É a minha vergonha de todo este processo que fez com a que a minha auto-estima caísse por terra. 

Tudo isto significa que, um ano depois dela nascer sentia-me fisicamente exausta o que me levou a ter, dois anos depois, um esgotamento emocional, estado ao qual se chama, vim há pouco tempo a saber: Burnout Parental. Dar um nome e falar com mulheres que têm o mesmo diagnostico tirou-me um peso de cima. Houve fases que achei que estava a enlouquecer e pus em causa se estaria a fazer o melhor e a ser uma boa mãe. Reconhecer que é humano sentir-me como me sinto, depois de tudo que passo e passei nestes últimos anos esta-me a dar força para começar a voltar a mim. Mas como custa e como tem altos e baixos.
Acabei também por perceber que voltar ao que era não faz sentido porque depois de ser mãe nunca mais voltamos a ser o que eramos. E este é o clichê mais verdadeiro de todo este universo sobre maternidade. Mudei profundamente. E a Raquel escolheu-me como mãe dela para que uma melhor versão de mim própria pudesse vir ao de cima. Disso tenho agora a certeza.
Se estou arrependida? Não. Não estou. Estou é por vezes, tão saturada que tenho sim, por momentos, saudades do antes. Se estou mal habituada? Experimentem e logo verão. Não dou valor ao que tenho? Dou Graças a Deus todos os dias pela filha tenho e família que estou a construir. É sim, um privilégio estar tão próxima da Raquel nos seus primeiros anos de vida que, não o ter feito, teria-me custado mais. Então do que reclamas, pensarão??? De nada. Simplesmente quero dizer que não há cenários ideais e nem vivências perfeitas. Há vidas. Cada uma com as suas dores, fragilidades e alegrias únicas e ao mesmo tempo tão iguais às de todos.

Ser mãe da Raquel é o desafio mais audacioso que estou a pagar para ver. Ela não tem consciência que, através dela conheci o amor incondicional. E que apesar de haver momentos difíceis, há igualmente momentos de uma felicidade inexplicável. Há uma energia no sorriso dela que me dá força para acordar todos os dias. Não há ternura maior que o olhar que me lança. O seu abraço é puro amor e os seus beijos feitiços que me dão coragem para viver. É a uma obra-prima. Um espectáculo de menina que superou tudo que perspectivei. É intensa. Com uma personalidade que gera dinâmica na rotina. É a minha filha... só posso estar orgulhosa. 
E acho que é isto ser mãe. Viver nos extremos.

PS: este texto dedico à minha mãe. E às minhas avós. E às minhas bisavós. E às todas as mães dos meus antepassados. As suas vivencias correm no meu sangue que me fazem ser a mulher que sou.




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