sexta-feira, 4 de março de 2011

És muito boa mas...


Um dia mais tarde, vou gostar de ler todos estes post aos meus bisnetos (sim, tenciono viver muitos anos). Estou mesmo a ver a reacção deles: "é pá... isto é mais uma caderneta de cromos, avó!"
Pois é, tenho mais um "cromo" para partilhar, este foi dos melhores(?!) que me aconteceu...

Resumindo:
Depois de várias pessoas terem recomendado o meu nome, um individuo (fazendo alusão ao último anuncio da MEO ;)))) contacta-me, querendo a minha actuação num evento.
Falamos sobre o tal evento, ele diz-me o que pretendia (quantas danças, a que horas, local, adereços, etc...) e como é óbvio digo-lhe qual é o "orçamento".
Senti logo um silêncio que, já não me é estranho...
Acabamos a conversa, combinando que no dia seguinte me daria uma resposta a confirmar.
Espero um dia, dois e ao fim do terceiro dia sem nenhuma resposta (pelo menos oficial), o meu instinto selvagem brota raivoso e... BOLAS!!!! Se me contactam a pedir, também podem contactar a dizer: "afinal, não muito obrigado!" Era isso que já calculava ( são anos de confirmações nunca feitas nem ditas). Ignorar é que não!!!! Mereço uma resposta, seja ela qual for!
Pois é... como previa... "desculpe não pude telefonar antes... (pois sim...) é que acabamos por decidir que, optamos por uma outra rapariga com um cachet mais baixo, mas...."
Até aqui nada que já não tivesse à espera, ok... sem problema, embora podiam ter logo dito que contavam com um orçamento mais baixo, até que....:
"mas... a Sara é uma excelente bailarina!"
What?!?!?!?!?!
Juro que fiquei uns cinco minutos a olhar para o telefone completamente parva, pensando:
Sou uma excelente bailarina, mas... não vale o dinheiro!

Então quanto dinheiro vale uma excelente bailarina?
Ponho a questão de outra forma:
Quanto dinheiro vale um excelente advogado? Um excelente médico? Um excelente professor doutor? Um excelente juiz? Um excelente engenheiro? Um excelente designer.... So on...
Pelos vistos uma excelente bailarina, não...

Nesse evento, faria das "tripas coração" para que as minhas actuações fossem o ponto alto da festa, porque sei o dinheiro que valho, tal como em todas as outras profissões socialmente valorizadas. Mas, pelos vistos, profissional de dança não faz parte desse grupo.
Iria dançar com a reflexo de 27 anos a aprender e especializar-me.
Iria dançar com a expressividade única de horas, dias, meses, anos de treino.
Iria dançar com a experiência de dezenas de eventos que já fiz iguais aquele.
Iria dançar com trajes e adereços adequados, que não tinham sido comprados na "loja dos chineses"!
Mas o mais importante de tudo... iria encher aquelas almas com ARTE... e isso não tem preço.
Iria generosamente, mostrar toda a minha intimidade mais profunda através de uma dança incompreendida e isso, não há dinheiro no mundo que pague!
.................................

Aceito, quando escolhem outra bailarina em vez de mim, porque apreciam mais o estilo dela. Percebo que, em muitos casos, não haja mesmo orçamento para pagar o justo às bailarinas, ok... Mas eu NUNCA, deixei de dançar, fosse onde fosse, por causa disso.
Quantas danças "pro bono" já não fiz. Quantas e quantas vezes já não baixei os meus cachets, porque percebia que não era, acharem que a minha actuação não valia, mas porque não era mesmo possível pagar esse valor.
Agora, quando sinto que não é esse o caso, e que afinal, não querem Arte, mas puro entretenimento, não lhes apetecendo pagar muito por isso, simplesmente porque acham que não vale........ fico............ olha, como o meu amor diz: "nem me digas nada!"

3 comentários:

  1. E lendo o que escreveste concluo que isso é não só uma falta de respeito para contigo (e com as bailarinas que passam pelo mesmo) mas sobretudo uma falta de respeito para com o público. "Ah e tal vamos entreter a malta, mas não é preciso muita qualidade que eles também não são muito espertos". É uma estupidez, porque as pessoas podem não perceber de dança oriental mas não são idiotas. Acabam por ficar com má impressão da dança, obviamente, e criam preconceitos. (além de ficarem com má impressão de quem organizou a festa...)

    Curiosamente não conheço ninguém capaz de contratar um mau cantor para evento nenhum. Supõe-se que os ouvidos são mais sensíveis que os olhos? :/

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  2. Querida Sara,
    é mesmo isso.
    Tudo o que implique o lado artístico não é valorizado socialmente, o que é uma pena.
    E o mais dramático é que começa nas escolas, o sistema educativo português é quadrado, toca a formatar, não te permite fazer grandes opções, experimentar coisas novas de várias áreas.
    É como se tivessem um molde, ou encaixas a bem, ou encaixas à força, ou desistes.
    É um problema de mentalidades, temos de à N/escala contrariá-lo.
    Não há nada que te ajude a perceber o que queres ser.
    Fiz testes psicotécnicos e soube o que já sabia, tinha jeito para artes e línguas, nem pensar em seguir mecânica!
    Diziam a quem escolhia o ramo artístico que ia enfrentar o desemprego.
    Toda essa atitude faz com que não se valorize quem tem profissões ligadas às artes.
    E já é tão difícil com os recibos verdes e com todas as penalizações monetárias que os trabalhadores independentes têm!!!
    Nunca percas essa atitude "pro bono", porque sim há quem valorize, mas não possa mesmo pagar o valor X.
    Em cada 10, haverá paspalhos como esse, haverá quem reconheça o teu valor e o possa pagar e quem o reconheça e não o possa pagar.
    Força Sara, mantém-te fiel aos valores em que acreditas e utiliza a tua profissão para transmitires essa mensagem. Bj

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  3. Pois é Ana, o que interessa é entreter, independentemente da qualidade. E claro, o publico percebe isso!E claro... um mau cantor doí mais nos ouvidos!!!

    Cecília, a nossa educação escolar é completamente formatada e castradora. Claro que é um problema social!!! Se reparares, uma criança que queira aprender artes tem de ser fora da escola.

    Não escolhi um caminho fácil, disso já sabia. E não houve educação escolar que me preparasse para isso. Acho que é mesmo a minha "mulher selvagem" que dita as minhas regras. Não cedo a injustiça, nem que me custe perder muita coisa. A minha dignidade enquanto pessoa e bailarina é mais forte e sei, que haverá sempre quem valorize. Nem que seja uma minoria...

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